Se você já leu o livro I, Libertine, ficaria surpreso ao saber de sua história bizarra. Como o DJ Jean Shepherd iniciou a farsa e como o livro chegou a existir?

Na década de 1950, o DJ Jean Shepherd criou um livro falso e incentivou seus ouvintes a ajudá‑lo a divulgar o texto inexistente. Muitos de seus ouvintes participaram dessa farsa. Anos depois, o livro foi realmente escrito.

Jean Shepherd e as Pessoas da Noite

Jean Shepherd ocupava as ondas da rádio WOR das 12 da‑noite às 5 da‑manhã no início dos anos cinquenta. Ele abordava uma variedade de temas, apresentando monólogos sombrios e cômicos que não eram comuns na época. Sozinho na estação de rádio, Shepherd experimentava o conceito de entretenimento radiofônico, frequentemente ignorando o formato imposto pela emissora.

Shepherd desenvolveu um público fiel, chamando seus ouvintes de pessoas da noite. Seus ouvintes desfrutavam de uma comunidade secreta e unida, pois eram os únicos a acompanhar o programa. Shepherd ainda criou um modo de se reconhecerem em público, usando a senha Excelsior, que deveria ser respondida com uma garrafa de água com gás.

Shepherd falava frequentemente sobre a diferença entre as pessoas da noite e as pessoas do dia, referindo‑se às primeiras como mais criativas porque a noite é quando as pessoas realmente se tornam indivíduos e todas as restrições à liberdade são removidas. (Fonte: Hoaxes)

A Farsa de I, Libertine

Em abril de 1955, Shepherd visitou uma livraria e perguntou se eles tinham uma cópia do roteiro de um antigo seriado de rádio Vic and Sade. Ao verificar, o balconista disse que não tinham, e que, na verdade, não se tratava de um livro real porque não constava no catálogo. Isso irritou Shepherd, pois ele sabia que o livro existia. Também exemplificou sua ideia sobre a diferença entre pessoas do dia e da noite.

Shepherd sentiu que, como o balconista era uma pessoa do dia, ele não conseguia imaginar que o livro existisse simplesmente porque não estava em sua lista. O DJ comentou sua experiência e reflexões sobre o programa de rádio, e então teve uma ideia. Ele pediu aos ouvintes que participassem de uma pegadinha prática que lhe ocorreu.

Shepherd solicitou que seus ouvintes visitassem livrarias e pedissem um livro que realmente não existia. Ele acreditava que isso abalaria as pessoas do dia, pois elas não encontrariam o livro de forma alguma. Seus ouvintes aderiram à ideia, sugerindo o título I, Libertine. Outro sugeriu que o autor fosse um especialista em erotismo do século XVIII. E outro recomendou que o nome do autor fosse Frederick R. Ewing.

A farsa tomou forma e, no dia seguinte à discussão da ideia por Shepherd, foi relatado que cerca de 27 pessoas fizeram um pedido do livro na livraria da 5ª Avenida. Os ouvintes foram até livrarias em todo o país nas semanas seguintes, encomendando o livro falso. (Fonte: Hoaxes)

Quando a farsa se tornou real? 

Os proprietários de livrarias ficaram perplexos com o número de pedidos do livro falso. Eles tentaram encontrar o livro em diferentes editoras, mas, claro, não conseguiram. Isso chamou a atenção do editor Ian Ballantine. Ballantine conseguiu rastrear a farsa até Shepherd.

Ballantine achou que seria interessante capitalizar a farsa publicando o livro de verdade. Ele entrou em contato com Shepherd e apresentou a ideia. Shepherd concordou, e um escritor de ficção científica, Theodore Sturgeon, um dos “night people” de Shepherd, foi contratado para escrever o livro.

Sturgeon terminou o livro em um mês, e ele foi publicado. Apenas 130.000 cópias foram impressas. Embora a farsa tenha sido tornada pública, a divulgação ajudou as vendas do verdadeiro I, Libertine. (Fonte: Hoaxes)