Imagine um som tão violento que ele não apenas cruza um oceano. Ele dá a volta no planeta. Depois faz isso de novo. E de novo.

Foi isso que aconteceu quando o Krakatoa entrou em erupção em agosto de 1883. Não metaforicamente. Não naquele sentido jornalístico frouxo de que “o mundo inteiro ouviu”. A onda de pressão da erupção foi acompanhada enquanto viajava ao redor da Terra pelo menos sete vezes.[1] A explosão foi ouvida a milhares de quilômetros de distância, com relatos vindos de dezenas de lugares ao redor do globo.[1] Perto do vulcão, o ruído não era apenas avassalador. Era fisicamente danoso.

Talvez seja a coisa mais próxima que a história registrada já viu de um som que se comportou como um evento planetário.

A manhã em que a ilha explodiu

O Krakatoa ficava no estreito de Sunda, entre Java e Sumatra, como parte de um grupo de ilhas vulcânicas no que hoje é a Indonésia. Em maio de 1883, começou a mostrar sinais de inquietação, mas a catástrofe atingiu o auge nos dias 26 e 27 de agosto.[1] Então veio a sequência que tornou a erupção lendária. Na manhã de 27 de agosto, quatro explosões gigantescas rasgaram a ilha, sendo a última e maior às 10h02.[1]

Essa detonação final foi a que entrou para a história como referência de puro volume sonoro. Mais de 70% do Krakatoa e do arquipélago ao redor foram destruídos enquanto o vulcão colapsava em uma caldeira.[1] Não foi uma erupção no sentido comum de cinzas e lava derramando de uma montanha. Foi uma demolição geológica em escala suficiente para apagar a maior parte da própria ilha.

E a destruição não parou em terra firme. A erupção lançou enormes tsunamis para fora, devastando litorais próximos e matando dezenas de milhares de pessoas.[1] O número de mortos citado por muito tempo é 36.417, embora algumas estimativas sejam maiores.[1]

O som que feriu corpos

Tendemos a pensar no som como algo intangível. Incômodo, talvez. Assustador. Mas, em última análise, sem substância. O Krakatoa é um lembrete de que som é pressão, e pressão, quando atinge força suficiente, vira violência.

A explosão final da erupção foi estimada em cerca de 310 decibéis na origem, muito além de qualquer coisa que o ouvido humano possa processar com segurança.[1] Marinheiros em navios relativamente próximos ao vulcão relataram tímpanos rompidos.[1] Este é o ponto em que “alto” deixa de ser a palavra certa. Um som assim não é mais apenas ouvido. Ele fere.

Mesmo longe do vulcão, a explosão permaneceu espantosamente audível. Foi ouvida em Perth, na Austrália Ocidental, a cerca de 3.110 quilômetros de distância, e em Rodrigues, perto de Maurício, a aproximadamente 4.800 quilômetros.[1] Relatos contemporâneos afirmavam que ela fora ouvida em cerca de 50 locais diferentes no mundo.[1] Há pouquíssimos eventos na história registrada para os quais a expressão ouvido no mundo inteiro possa ser usada com uma literalidade quase constrangedora. O Krakatoa é um deles.

Quando a atmosfera virou mensageira

A razão de o som ter viajado tão longe é que o Krakatoa não estava apenas fazendo barulho. Ele estava golpeando a atmosfera com força suficiente para lançar por ela uma onda de pressão em disparada.

Barógrafos ao redor do mundo registraram a perturbação quando ela passou. Depois a registraram de novo. A onda aérea da erupção deu várias voltas ao redor da Terra, pelo menos sete segundo algumas medições, enfraquecendo, mas ainda detectável enquanto seguia adiante.[1] Em certo sentido, o planeta inteiro ressoou.

Essa é uma das coisas mais estranhas sobre o evento. Normalmente, um som começa a morrer no instante em que nasce. O Krakatoa, em vez disso, tornou-se um sinal atmosférico global, uma onda de choque tão forte que instrumentos meteorológicos do outro lado do mundo registraram sua passagem. É difícil pensar em exemplo melhor de a Terra se comportando como um sistema único e conectado.

A explosão não terminou quando o ruído acabou

A maioria dos desastres tem a decência de permanecer local. O Krakatoa não teve.

A erupção lançou enormes quantidades de cinza e dióxido de enxofre para o alto da atmosfera, onde se espalharam pelo globo.[1] Nos meses e anos que se seguiram, pessoas muito distantes da Indonésia viram pores do sol extraordinários, crepúsculos estranhos e um céu alterado.[1] A atmosfera passou a espalhar a luz do Sol de forma diferente. Por um tempo, o mundo pareceu machucado e teatral.

As temperaturas globais também caíram na sequência, fazendo do Krakatoa um dos exemplos clássicos de um evento vulcânico que afetou o clima muito além de sua região imediata.[1] Isso faz parte do motivo pelo qual a erupção parece tão moderna em retrospecto. Não foi apenas uma catástrofe local. Foi um evento ambiental com impressões digitais globais.

Portanto, a afirmação do título de que ela escureceu os céus do mundo inteiro não é realmente exagero. O Krakatoa injetou material suficiente na alta atmosfera para fazer populações distantes perceberem que o próprio céu havia mudado.[1] A erupção terminou em dias. Seus efeitos visuais duraram anos.

Por que o Krakatoa ainda parece incomparável

Houve erupções maiores na história geológica. Houve desastres mais letais. Mas o Krakatoa mantém um lugar especial porque colidiu de forma tão perfeita com a percepção humana. Foi uma erupção que as pessoas não apenas sofreram. Elas a ouviram, a registraram, viram-na alterar o pôr do sol e mediram sua onda de pressão quando ela retornou ao redor da Terra.

Essa combinação importa. Um vulcão pode ser inimaginavelmente poderoso e ainda assim parecer remoto. O Krakatoa fez o oposto. Tornou sua força legível. Traduziu-se em som, pressão, clima, número de mortos, tímpanos rompidos e céus escurecidos. Deixou evidências em corpos e em instrumentos. Anunciou-se tão alto que até a atmosfera continuou repetindo a mensagem.

É por isso que a erupção de 1883 ainda se sustenta como a melhor candidata ao som mais alto da história registrada. Não porque ninguém jamais tenha feito uma afirmação maior, mas porque o Krakatoa deixou para trás uma das coisas mais raras da história dos desastres: um superlativo que realmente resiste ao escrutínio.[1]

Fontes

1. Wikipedia - 1883 eruption of Krakatoa