A maioria dos presidentes tem um jeito de encerrar uma reunião. Alguns olham para o relógio. Outros ajeitam os papéis. Gerald Ford tinha algo melhor: uma golden retriever chamada Liberty.[1]

Se uma conversa no Salão Oval já tivesse se alongado o bastante, Ford podia fazer um sinal discreto. Liberty trotava até o visitante, abanando o rabo, irradiando simpatia, e de repente a atmosfera mudava. A interrupção parecia natural, até encantadora. Ninguém tinha sido cortado. Ninguém tinha sido convidado a se retirar. A reunião simplesmente, com graça, havia encontrado seu fim.[1]

É o tipo de detalhe que parece bom demais para ser verdade, exceto pelo fato de combinar quase perfeitamente com Ford. Ele não era um presidente conhecido por ameaças teatrais ou por espalhafato político. Então, é claro, sua estratégia de saída não era um sinal sonoro nem um assessor severo. Era um cachorro feliz.

O cão na grande Casa Branca

O nome completo de Liberty era Honor's Foxfire Liberty Hume. Ela nasceu em 8 de fevereiro de 1974 e chegou à Casa Branca naquele outono, ainda uma filhote de oito meses.[1] Foi um presente ao presidente Ford de sua filha Susan Ford e do fotógrafo da Casa Branca David Hume Kennerly. A criadora da filhote de pelagem dourada escura era Ann Friberg, de Mount Vernon, Washington.[1]

O momento importava. Ford havia chegado à presidência em circunstâncias extraordinárias, assumindo o cargo após a renúncia de Richard Nixon, em agosto de 1974. O país estava tenso, desconfiado, exausto. E então, dentro daquela atmosfera, entrou uma golden retriever, só pelo, entusiasmo e afeto descomplicado. Liberty não era política. E essa era precisamente sua utilidade política.

Ela rapidamente se tornou uma presença familiar na Casa Branca de Ford. Foi fotografada no Salão Oval, no gramado sul e até na piscina de Camp David.[1] Ela não ficava escondida como um animal de estimação de fundo. Era visível, presente, entrelaçada ao cotidiano visual da presidência.

Como Liberty ganhou seu nome

O próprio Ford adorava contar a história de como a cadela chegou. Em um discurso de 1974, ele explicou que Susan Ford e Kennerly precisaram tranquilizar a criadora de que a filhote iria para um bom lar.[1] Eles descreveram os futuros donos como pais amigáveis, de meia-idade, com quatro filhos. Viviam, disseram Susan e David, em uma grande casa branca cercada por uma grade.[1]

A criadora, compreensivelmente protetora, queria saber mais. A cadela teria comida suficiente? O pai tinha um emprego estável? Ford brincou que nessa pergunta eles ficaram momentaneamente encurralados.[1] A anedota funcionava porque fazia a presidência soar, por um momento, quase doméstica. Não imperial. Não distante. Apenas uma família tentando adotar um cachorro.

Deram a ela o nome Liberty, uma escolha que era ao mesmo tempo patriótica e pessoal. Ford até brincou que aquela “Liberty” provavelmente lhe custaria um pouco da sua, porque Susan prontamente declarou que seria seu pai quem alimentaria, escovaria e passearia com a cadela.[1] Era uma frase clássica de Ford, meio piada de pai, meio parábola cívica.

A interruptora política perfeita

Mas o papel mais fascinante de Liberty não era cerimonial. Era estratégico, do jeito mais gentil possível. Histórias da Casa Branca diziam que, quando Ford queria encerrar uma conversa no Salão Oval, ele fazia um sinal para Liberty. Ela então se aproximava do visitante, abanando o rabo, e criava o que uma fonte chamou de “pausa natural”.[1]

Essa expressão importa: pausa natural. Washington funciona na base da artificialidade, de entradas encenadas e saídas coreografadas, de poder expresso por meio do protocolo. Liberty oferecia outra coisa. Ela tornava a sala brevemente humana de novo. Dava a Ford um jeito de encerrar um encontro sem transformá-lo em confronto.

E isso, à sua pequena maneira, diz algo sobre a presidência. Poder não é apenas a capacidade de mandar. É também a capacidade de administrar as emoções dos outros. Um retriever abanando o rabo às vezes conseguia fazer isso melhor do que uma equipe inteira.

A vida na Casa Branca de Ford

Liberty fez mais do que circular de forma fotogênica pelo Poder Executivo. Em 14 de setembro de 1975, ela deu à luz uma ninhada de filhotes na Casa Branca.[1] Um deles, Misty, ficou com Ford.[1] Hoje, esse detalhe parece quase impossivelmente reconfortante: filhotes na Casa Branca durante uma presidência que ainda operava sob a sombra de Watergate e da desconfiança nacional.

Havia também histórias menores, do tipo que faz a história política parecer menos mármore e mais carpete. Em certo momento, Ford teria ficado trancado em uma escadaria da Casa Branca depois de voltar de uma caminhada matinal com Liberty no gramado sul.[1] Fotos de Liberty eram autografadas com um carimbo de borracha com a marca de sua pata.[1] Mesmo na casa mais formal da política americana, ela deixou para trás o equivalente canino de uma assinatura.

Por que as pessoas se lembram dela

Liberty morreu em 1984, mas sobreviveu ao seu momento no cargo ao se tornar parte da memória pública de Ford.[1] Ela foi até imortalizada em bronze ao lado dele na instalação “City of Presidents”, em Rapid City.[1] É uma vida póstuma notável para um animal de estimação presidencial. Não apenas lembrada, mas transformada em escultura.

E talvez isso aconteça porque Liberty representava algo que eleitores e historiadores gostam de encontrar em presidentes: a evidência de uma pessoa real por trás do cargo. No caso de Ford, a cadela ajudava a projetar firmeza, decência e uma normalidade quase típica do Meio-Oeste. Ele era o presidente com a golden retriever. O presidente que passeava com o cachorro ele mesmo. O presidente que, quando necessário, deixava a cadela fazer o trabalho diplomático de encerrar a reunião.

Talvez seja por isso que a história continue viva. Na mitologia da presidência, alguns animais simbolizam conquista ou espetáculo. Liberty simbolizava algo mais raro e mais útil: tato. Era afetuosa, politicamente inofensiva e, ao que tudo indica, muito boa em ler o ambiente. Não é um currículo ruim, nem para uma cadela nem para uma assessora da Casa Branca.

Fontes

[1] Wikipedia: Liberty (dog)