A maioria das histórias de fuga de zoológico segue o mesmo padrão. Há pânico, há sirenes, há a súbita percepção de que um animal selvagem está em algum lugar onde não deveria estar. A história de Ken Allen foi diferente.
Quando o orangotango de Bornéu escapou do seu recinto no Zoológico de San Diego, ele não avançou contra as pessoas. Não atacou tratadores. Não se transformou em manchete ao se comportar como um monstro. Na maior parte do tempo, ele simplesmente vagava pelo zoológico, olhando calmamente para outros animais, como se fosse apenas um visitante insatisfeito inspecionando o restante do local.[1]
Isso foi parte do que o tornou inesquecível. A outra parte foi que ele continuou fazendo isso.
O orangotango que ridicularizou o recinto
Ken Allen nasceu no Zoológico de San Diego em 13 de fevereiro de 1971.[1] Ele era um orangotango de Bornéu, e desde o começo havia sinais de que ele não tinha sido feito para o confinamento em nenhum sentido comum. Segundo relatos posteriores, ainda jovem ele desenroscava porcas e removia parafusos no berçário do zoológico.[1] Alguns animais testam limites. Ken Allen parecia estudá-los.
Em 1985, ele já tinha se tornado algo próximo de um constrangimento institucional. O zoológico acreditava que seu recinto era à prova de fuga. Ken Allen discordava. Em 13 de junho, 29 de julho e 13 de agosto daquele ano, ele saiu de qualquer maneira.[1]
É neste ponto que muitas histórias tomariam um rumo sombrio. Em vez disso, Ken Allen ficou famoso pela calma de suas escapadas. Durante as fugas, ele passeava pacificamente pelo zoológico, olhando outros animais. Nunca agiu de maneira violenta ou agressiva com os visitantes do zoo ou com outros animais, com uma exceção notável: outro orangotango chamado Otis, que ele supostamente detestava.[1]
Um fugitivo com excelente relações públicas
O público o adorou quase imediatamente. Ken Allen ganhou o apelido de "The Hairy Houdini".[1] Ele atraiu atenção mundial. Inspirou camisetas e adesivos de carro, muitos deles com a frase Free Ken Allen.[1] Ele chegou até a ter seu próprio fã-clube.
Não é difícil entender por quê. Havia algo irresistivelmente humano em toda a história, não no sentido sentimental, mas em um sentido mais inquietante. Ele parecia ter preferências, planos, senso de timing e um olhar para fraquezas. Ele não era apenas mais forte do que o sistema. Parecia mais inteligente do que ele.
Os zoológicos são construídos com a premissa de que a linha entre o exibido e o observador é fixa. Ken Allen transformou essa linha em uma sugestão.
Os tratadores começaram a observar, e ele percebeu
No começo, os tratadores não conseguiam descobrir como ele fazia aquilo.[1] Então instalaram vigilância. Isso parece simples, até que se chega ao detalhe perturbador: Ken Allen parecia saber que estava sendo observado. Antes de sua fuga de 13 de agosto, ele teria sido visto com um pé de cabra dentro do recinto, mas o largou quando um funcionário passou, como se de repente tivesse perdido o interesse.[1]
Esse detalhe eleva a história acima do folclore comum de zoológico e a leva para algo mais estranho. Sugere teatro. Despiste. Uma performance de inocência.
O pessoal do zoológico acabou tentando agir disfarçado, fingindo ser turistas para aprender sua rota de fuga.[1] Não funcionou. Ken Allen não foi enganado. Ele se ajustou. Os humanos mudaram de tática. O orangotango mudou mais rápido.
Ele não ficou sozinho por muito tempo
Durante algumas de suas fugas, suas companheiras fêmeas se juntaram a ele.[1] Mais tarde, outros orangotangos também seguiram seu exemplo e escaparam.[1] Esta é uma das partes mais interessantes da história, porque transforma Ken Allen de mero artista da fuga em algo mais próximo de uma força cultural. Ele não estava apenas saindo. Estava mudando a atmosfera comportamental ao seu redor.
Essa possibilidade sempre fez sua história parecer maior do que uma sequência de incidentes divertidos. Um único animal escapar é uma coisa. Um animal ensinar ao sistema que ele pode ser vencido, e talvez ensinar essa mesma lição a outros, é outra.
O zoológico reagiu
Após cada fuga, Ken Allen era colocado em confinamento solitário enquanto a equipe tentava descobrir como impedir a próxima.[1] O zoológico acrescentou obstáculos. Usou vigilância. Lidou com tentativas repetidas, incluindo uma em 1986 que envolveu cercas elétricas.[1] Em certo momento, quando um fosso do recinto estava sendo reparado em abril de 1986, Ken Allen escapou de novo.[1]
Por fim, em 1987, os responsáveis pelo zoológico contrataram escaladores experientes para inspecionar o recinto e identificar qualquer possível apoio para dedos e pés. O zoológico gastou 40 mil dólares eliminando esses apoios.[1]
Esse detalhe mostra a dimensão do desencontro. A instituição precisou recorrer a escaladores profissionais para tentar pensar como o orangotango.
O raro momento de violência
A docilidade de Ken Allen durante suas fugas é central para sua lenda, mas não era absoluta. Durante sua terceira fuga em 1985, ele foi pego atirando pedras em Otis e teve de ser conduzido de volta ao recinto. Depois disso, o zoológico o colocou temporariamente em confinamento solitário.[1]
Esse momento importa não porque o torne menos notável, mas porque o torna mais específico. Ele não era um símbolo fofinho de liberdade. Era um orangotango com seus próprios ressentimentos, seu próprio temperamento e suas próprias opiniões sobre quem merecia sua atenção e quem merecia uma pedra.
Por que Ken Allen perdurou
Ken Allen morreu em 1º de dezembro de 2000, aos 29 anos, depois de desenvolver linfoma de células B. Ele foi submetido à eutanásia.[1] A essa altura, já havia se tornado algo raro na história dos zoológicos: não apenas um animal conhecido, mas uma lenda local que havia escorregado para a cultura popular.
Parte disso teve a ver com o momento. Parte, com a elegância cômica das fugas. Mas a razão mais profunda é que Ken Allen expôs uma tensão que as pessoas já sentiam, mas raramente articulavam. Construímos recintos para provar controle. Então um orangotango sai para passear, lança um olhar às zebras e lembra a todos que a inteligência não termina na fronteira da espécie humana.
Ele não aterrorizou o zoológico. Ele o constrangeu, calma e repetidamente, e de algum modo isso tornou a história ainda melhor.
Em 2013, a Time incluiu seu caso entre as principais fugas de zoológico.[1] Mas até isso quase diminui a história. Ken Allen não foi memorável simplesmente porque escapou. Muitos animais escaparam. Ele foi memorável porque escapou como alguém que já havia pensado sobre o problema com mais cuidado do que as pessoas encarregadas dele.




