Em um torneio de xadrez em Amsterdã, em 1976, Viktor Korchnoi fez algo quase pequeno demais para o tamanho da decisão que havia por trás. Ele perguntou a um competidor inglês como se escreviam duas palavras: “political asylum”. Depois, o grande mestre soviético foi a uma delegacia e disse que queria desertar.
Viktor Korchnoi, um dos enxadristas mais fortes que nunca se tornaram Campeões Mundiais de Xadrez, desertou para os Países Baixos em 1976. A famosa pergunta sobre a grafia de “political asylum” captura a estranheza daquele momento: um grande mestre organizando o próprio futuro, uma palavra em inglês de cada vez.
Korchnoi havia nascido em Leningrado em 1931 e, quando chegou a Amsterdã, não era nenhum desconhecido errante com um tabuleiro de xadrez debaixo do braço.[1] Ele tinha o título de grande mestre desde 1956, havia vencido campeonatos soviéticos e, em janeiro de 1976, ocupava o 2º lugar no ranking mundial.[1] O homem que pedia ajuda com uma expressão já era um dos jogadores mais temíveis em atividade.
O xadrez lhe dera uma vida de linguagem exata. Uma casa não podia estar quase certa. Um lance precisava ser registrado com clareza. O relógio corria, quer o jogador estivesse pronto ou não. Nesse contexto, o pedido de ajuda para soletrar não era um detalhe descartável. Korchnoi não pediu que alguém explicasse o que era asilo, nem que redigisse uma declaração, nem que traduzisse toda uma história pessoal. Ele precisava das palavras em si, letra por letra.
O grande mestre que não se encaixava
Dois anos antes da deserção em Amsterdã, Korchnoi havia chegado perto o bastante do título mundial para sentir seu contorno. Em 1974, perdeu para Anatoly Karpov na final do Torneio de Candidatos.[1] Quando Bobby Fischer mais tarde se recusou a defender o título, Karpov tornou-se Campeão Mundial de Xadrez em 1975.[1] Korchnoi ficou do lado de fora da coroa, não como um desafiante distante, mas como o jogador que perdera a partida que ajudou a definir a sucessão.
Sua reputação posterior torna essa quase conquista ainda mais significativa. Korchnoi é considerado um dos jogadores mais fortes que nunca chegaram a ser Campeões Mundiais de Xadrez.[1] Ele ainda disputaria quatro matches contra Karpov, três deles oficiais, de modo que a rivalidade não terminou com a final dos Candidatos de 1974.[1] Ela continuou retornando, atravessando tabuleiros, bandeiras e climas políticos.
A expressão que Korchnoi perguntou como se escrevia carregava consequências que iam além do xadrez. O direito de asilo é um conceito jurídico pelo qual pessoas perseguidas por seus próprios governantes podem ser protegidas por outra autoridade soberana.[2] O asilo político pode ser solicitado quando pessoas têm medo de viver em seu próprio país, ou são oprimidas nele, e pedem a outro país que lhes permita permanecer ali.[3] Pedidos de asilo frequentemente estão ligados ao medo de sofrer danos por motivos como religião, opinião política, pertencimento a determinado grupo social ou outros fundamentos protegidos.[3]
Depois de Amsterdã, o nome de Korchnoi passou a percorrer as categorias que aparecem ao lado da biografia de um jogador. Ele desertou para os Países Baixos em 1976, foi listado como apátrida de 1977 a 1979 e depois representou a Suíça.[1] Passou a residir na Suíça a partir de 1978 e tornou-se cidadão suíço.[1] O tabuleiro ainda tinha sessenta e quatro casas. O país ao lado de seu nome não permaneceu o mesmo.
Depois da delegacia
Korchnoi não se tornou um exilado desaparecido nem um símbolo aposentado. Continuou jogando e escrevendo, e seu rating máximo, 2695, veio em janeiro de 1979, depois do rompimento com a União Soviética.[1] Fosse o que fosse que tivesse mudado, sua força diante do tabuleiro não havia ficado para trás na fronteira.
A pergunta sobre a grafia sobrevive porque reduz uma decisão enorme a algo de escala humana. Um homem famoso por enxergar muitos lances à frente ainda precisava de ajuda com duas palavras em inglês. Seu futuro não começou com um sacrifício espetacular nem com um troféu de torneio. Começou com letras arranjadas com clareza suficiente para serem levadas a uma delegacia.


