Na costa do Golfo, na Flórida ou no Texas, um beija-flor-de-garganta-rubi pode deixar para trás o último poleiro e seguir rumo à Península de Yucatán. Pela frente há cerca de 800 quilômetros de águas do Golfo, sem flores, sem comedouros e sem nenhum lugar para parar até o fim da travessia.[1]

Beija-flores-de-garganta-rubi conseguem cruzar o Golfo do México em um único voo sem escalas de cerca de 800 quilômetros, levando aproximadamente 20 horas e dependendo das reservas de gordura que acumularam antes de deixar a terra firme.

A ave que tenta essa façanha é quase absurdamente pequena. Um beija-flor-de-garganta-rubi mede apenas de 7 a 9 centímetros de comprimento, com uma envergadura de 8 a 11 centímetros. Seu peso pode variar de 2 a 6 gramas, com os machos pesando em média cerca de 3,4 gramas e as fêmeas cerca de 3,8 gramas.[2] Mesmo depois de engordar para a migração, a ave pode pesar apenas entre 5 e 7 gramas quando se lança sobre o Golfo.[1]

No verão, este é o beija-flor familiar do leste da América do Norte: um borrão verde-metálico entre flores e comedouros, e o beija-flor mais comum nessa parte do continente.[2] No inverno, a espécie geralmente está na América Central, no México e na Flórida.[2] A parte difícil é o espaço entre essas duas vidas. Alguns beija-flores-de-garganta-rubi migram por terra, onde é possível parar. Outros seguem pela rota direta sobre o Golfo do México, um trajeto frequentemente descrito como cerca de 800 a 960 quilômetros de oceano aberto.[3]

A ave se transforma no próprio tanque de combustível

Antes da travessia, o beija-flor se alimenta intensamente. Relatos sobre a migração descrevem aves comendo nos dias e semanas anteriores à partida para acumular reservas de gordura para o longo voo; seu peso pode dobrar antes de cruzarem o Golfo.[4] Essa massa extra não é um luxo. Trata-se de uma ave cujo metabolismo comum já é extremo, impulsionado por asas que batem cerca de 80 vezes por segundo em voo normal e muito mais rápido durante exibições de cortejo.[1]

O voo pairado consome muita energia porque as asas fazem algo que as asas da maioria das aves não fazem. No beija-flor-de-garganta-rubi, elas se movem para a frente e para trás em um padrão em forma de 8, gerando sustentação nos dois movimentos.[1] Esse mecanismo permite que a ave fique suspensa diante de uma flor, recue, dispare para os lados e até voe de cabeça para baixo por breves instantes.[1] O mesmo corpinho minúsculo que realiza esses truques no quintal também precisa se transformar em uma máquina de resistência sobre a água.

A uma velocidade média de migração de cerca de 40 quilômetros por hora, a travessia do Golfo leva aproximadamente 20 horas.[1] Outros resumos de voos registrados descrevem viagens sem escalas de mais de 800 quilômetros, incluindo o relato de uma fêmea de beija-flor-de-garganta-rubi que teria percorrido 930 quilômetros em pouco mais de 23 horas.[5] Para um animal que costuma se alimentar com frequência durante as horas ativas, a travessia é uma aposta feita com gordura, tempo certo e clima favorável.[3]

Por que escolher a rota sobre a água?

Beija-flores-de-garganta-rubi se reproduzem em grande parte do leste da América do Norte, chegando até o Canadá, e depois seguem para o sul quando o frio reduz a disponibilidade de flores, insetos e tempo de alimentação.[2] Sua jornada anual pode somar milhares de quilômetros entre as áreas de reprodução ao norte e os locais de inverno no México e na América Central.[3] A rota pelo Golfo é mais curta do que contornar a água, mas não deixa margem para um erro no cálculo de combustível.

O vento faz diferença. Os beija-flores são descritos como aves que sincronizam a travessia do Golfo com condições favoráveis, especialmente ventos de cauda que reduzem o custo energético da viagem.[4] Eles também carregam adaptações adequadas a longos períodos de esforço, incluindo músculos de voo eficientes, um denso suprimento de sangue para esses músculos, armazenamento de gordura e mecanismos que ajudam a conservar água e energia.[4] Nada disso torna a travessia suave. Apenas a torna possível.

A imagem de quintal do beija-flor-de-garganta-rubi é a de uma ave suspensa na luz do sol, bebendo de uma flor como se tivesse escapado da gravidade. A imagem da migração é mais estranha: a mesma ave, pesando menos que uma moeda, deixando a costa com o corpo cheio de combustível, suas batidas de asa costurando um caminho pela noite até que a água escura finalmente dê lugar à terra.

Fontes

  1. Hilton Pond Center, Ruby-throated Hummingbird Flight Behavior
  2. Wikipedia, Ruby-throated Hummingbird
  3. BirdWatching, Why This Tiny Bird Travels 3,000 Miles Without Stopping
  4. Hummingbird101, How Do Hummingbirds Fly Across the Gulf of Mexico?
  5. Hummingbird101, How Many Miles Can a Hummingbird Fly Non-stop?