Durante séculos, a Grã-Bretanha permitiu que uma colina quase vazia enviasse dois membros ao Parlamento. O local era Old Sarum, um local varrido pelo vento nos arredores da moderna Salisbury que já fora um verdadeiro centro de poder, mas que de alguma forma manteve a sua influência política muito depois de a maior parte da sua população ter partido.[1][2][3]
É isso que faz a história parecer menos história do que sátira. A Velha Sarum foi importante em várias vidas diferentes: primeiro como um forte na colina da Idade do Ferro, depois como um castelo normando e complexo de catedral e, por um tempo, como um importante centro administrativo no sul da Inglaterra.[2][3] Mas quando a catedral se mudou para a vizinha Salisbury, na década de 1220, o antigo local desapareceu. A pedra foi extraída, o assentamento foi diminuindo e a colina lentamente se transformou em uma concha.[1][2][3]
A cadeira parlamentar, no entanto, permaneceu estranhamente saudável. O velho Sarum manteve o direito de eleger dois deputados até a Lei de Reforma de 1832, apesar de não ter mais população significativa.[1][4] A Britannica observa que bairros podres como este estavam entre os escândalos mais claros do sistema não reformado, com eleitorados minúsculos dando aos patronos aristocráticos um poder extremamente desproporcional na Câmara dos Comuns.[4]
Old Sarum foi um dos exemplos mais notórios porque os seus direitos de voto estavam ligados a conspirações de burgueses. Na prática, isso significava que o controle da terra significava o controle dos assentos.[1] Na eleição final de 1831, havia apenas onze eleitores e nenhum deles morava lá.[1] Isso é menos democracia do que a gestão de propriedades em trajes cerimoniais.
O melhor detalhe é quão fielmente o ritual sobreviveu depois que a cidade não sobreviveu. De acordo com o registro eleitoral, uma eleição em 1802 foi realizada em uma cabine temporária instalada em um milharal sob uma árvore que marcava a antiga fronteira.[1] As autoridades leram as formalidades legais, pediram três vezes mais nomeações e depois declararam eleitos os homens escolhidos.[1] Imagine votar num campo para uma cidade que tinha efectivamente desaparecido, enquanto todos os envolvidos fingiam que esta era uma vida constitucional normal.
O velho Sarum tornou-se um símbolo tão poderoso porque comprimiu todo o absurdo numa única imagem: terra vazia, poder real.[1][4] O local já ajudou reis e bispos a administrar uma região.[2][3] Muito depois de essa importância ter desaparecido, ainda ajudou os patronos a trazer homens amigos para o Parlamento.[1][4]
É por isso que o fato ainda ocorre agora. Os sistemas políticos não param de quebrar só porque todos podem ver a ruptura. Às vezes as formas permanecem organizadas, o ritual sobrevive e o absurdo se transforma em costume. O velho Sarum deu aos reformadores um exemplo perfeito. Se um morro abandonado pudesse escolher dois legisladores, o problema não eram alguns rangidos. A máquina inteira estava deformada.[1][2][4]




