Dentro da caixa, a arma parecia menos a pistola de um soldado e mais um adereço de metal estampado saído de um filme ruim de espionagem. Uma pistola rudimentar. Dez cartuchos .45. Uma pequena vareta de madeira. Uma folha de instruções sem palavras, desenhada como uma história em quadrinhos, para que quem a abrisse pudesse entender o mecanismo sem precisar ler inglês.[2][3]
A FP-45 Liberator foi uma pistola de tiro único de US$ 2,10 fabricada pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial para combatentes da resistência em territórios ocupados. Era barata o bastante para ser espalhada pelo ar, simples o suficiente para ser explicada por desenhos e destinada a um único disparo a curta distância antes de se tomar uma arma melhor.
O nome oficial era deliberadamente sem graça: Flare Projector Caliber .45, ou FP-45. O disfarce ia além do rótulo. Nos desenhos de engenharia, o cano virava um “tubo”, o gatilho uma “forquilha”, o percussor uma “haste de controle” e o guarda-mato uma “chave”.[1] Até a papelada tentava não admitir que os Estados Unidos estavam produzindo em massa uma pistola para pessoas atrás das linhas inimigas.
A ideia surgiu em março de 1942, sugerida por um adido militar polonês e depois adotada pelo Comitê Conjunto de Guerra Psicológica do Exército dos EUA.[1][4] George Hyde projetou a arma para o Exército, e a produção ficou a cargo da Divisão Guide Lamp da General Motors, em Anderson, Indiana.[1] A Guide Lamp não era conhecida por pistolas refinadas. Ela entendia de metal estampado, produção em alta velocidade e repetição fabril — exatamente o que o trabalho exigia.
Pelos padrões das armas de fogo, a Liberator era quase agressivamente simples. Pesava cerca de meio quilo, media 5,55 polegadas de comprimento, disparava um cartucho .45 ACP e comportava apenas um tiro por vez.[1] Não havia carregador. Seu alcance efetivo era indicado como cerca de 8 jardas.[1] Um relato observou que a pistola podia ser fabricada mais rápido do que podia ser carregada.[3]
Uma arma feita para o primeiro disparo
O plano por trás da Liberator era brutal e limitado. Um combatente da resistência não deveria levá-la para um tiroteio. Deveria se aproximar, usar o único disparo contra um ocupante e então tomar a arma e o equipamento melhores do soldado.[2][3] A pistola era uma chave para uma única porta — desde que o usuário sobrevivesse tempo suficiente para girá-la.
Os planejadores americanos também tratavam a pequena arma como um instrumento psicológico. Espalhar pistolas baratas por territórios ocupados poderia fazer mais do que armar insurgentes. Poderia deixar as tropas de ocupação inquietas, obrigando-as a imaginar uma arma em cada celeiro, vala ou bolso de casaco.[3][4] Uma pistola com aparência descartável ainda podia sair caro para um exército tentando se sentir seguro.
Os números de produção foram enormes. Cerca de um milhão de pistolas FP-45 foram fabricadas em 1942, a um custo unitário de US$ 2,10.[1] Um relato histórico afirma que aproximadamente 300 trabalhadores produziram toda a leva em onze semanas, montando uma pistola de 23 peças a cada 6,6 segundos, dia e noite.[3] Cada uma era embalada em uma caixa de papelão revestida de parafina, junto com munição, a vareta de madeira e a folha ilustrada.[2][3]
Sua carreira durante a guerra foi mais nebulosa do que sua linha de produção. A Liberator nunca foi entregue a tropas americanas ou de outros países Aliados, e há poucos casos documentados de uso exatamente como planejado.[1] Essa ausência faz parte do próprio tema. Combatentes da resistência e forças irregulares tinham bons motivos para não manter registros escritos que pudessem ser capturados pelo inimigo.[1] As fontes divergem sobre a escala dos lançamentos na Europa, enquanto as evidências apontam com mais força para o uso por guerrilheiros nas Filipinas e alguma distribuição por meio do OSS.[2][3]
Depois da guerra, a pequena pistola se tornou quase tão descartável quanto seus projetistas haviam imaginado. Poucas foram distribuídas como planejado, e a maioria foi destruída pelas forças Aliadas.[1] Outros relatos descrevem centenas de milhares jogadas fora, derretidas ou sucateadas, o que ajudou a transformar os exemplares sobreviventes em peças raras de colecionador.[2][3] A folha de instruções em quadrinhos e a caixa de papelão original podem ser ainda mais raras do que a própria arma.[3]
A Liberator continua sendo um artefato estranho da guerra industrial: um milhão de pistolas baratas construídas para uma pessoa assustada em território ocupado, abrindo uma caixa encerada e encontrando, ao lado de dez cartuchos e uma folha de desenhos, uma única chance.






