A cultura de beleza vitoriana tinha um gosto por perigo, literalmente. Na Europa e nos Estados Unidos, algumas mulheres ingeriam arsênico em busca da tez pálida e delicada que sinalizava riqueza, fragilidade e status social.[1][2]
Na segunda metade do século XIX, o arsênico era vendido não apenas como veneno, mas como auxílio de beleza. Os anunciantes promoviam sabonetes, lavagens, comprimidos, líquidos e pastilhas de tonalidade à base de arsênico que prometiam eliminar sardas, cravos e espinhas, ao mesmo tempo que conferiam à pele um brilho mais suave e mais branco.[2] Um dos exemplos mais conhecidos, as pastilhas de tonalidade de arsênico do Dr. James P. Campbell, permaneceram no mercado até bem entrado o século XX.[1][2]
A mania não surgiu do nada. Na década de 1850, relatos se espalharam pelo mundo de língua inglesa sobre os chamados “comedores de arsênico” na Estíria e na Baixa Áustria, pessoas que supostamente tomavam pequenas doses de arsênico para parecer mais cheias, rosadas e mais atraentes.[2] Alguns médicos duvidaram de partes dessas histórias, mas o boato por si só foi suficiente. Quando o arsênico passou a estar associado a tonalidades de pele exuberantes, o comércio de beleza fez o que sempre faz e transformou a fantasia em produtos.[2]
O apelo fazia sentido social de forma sombria. A pele pálida sugeria que a pessoa não trabalhava ao ar livre, e em alguns círculos da moda até mesmo o aspecto abatido associado à tuberculose era romantizado como elegante.[1] O arsênico parecia prometer algo que a maquiagem não podia, não uma beleza pintada, mas uma beleza que parecesse natural, delicada e cara.[1][2]
O que torna a história tão sombria é que o arsênico não era um remédio inocente descoberto depois como nocivo. Já era notório como veneno.[2][4] A toxicologia moderna apenas reforça isso. O arsênico inorgânico é facilmente absorvido pelo trato gastrointestinal e pode causar danos graves ao sistema gastrointestinal, cardiovascular e neurológico.[3] Os clientes vitorianos não confiavam em um tônico inofensivo. Eles apostavam que um veneno famoso, tomado em doses suficientemente pequenas, poderia ser usado como cuidado da pele.[2][3]
Havia também uma camada mais familiar sob a química. Como observa Cosmetics and Skin, alguns produtos à base de arsênico podem ter continhado apenas vestígios, ou quantidades tão baixas que não faziam diferença cosmética alguma.[2] A ideia ainda vendia. Os consumidores estavam comprando uma promessa tanto quanto um tratamento, a promessa de que a beleza poderia ser adquirida, engarrafada e parecer sem esforço.
É por isso que o fato ainda ressoa hoje. As fórmulas mudam e a marca fica mais limpa, mas a pressão subjacente é reconhecidamente moderna. Quando uma cultura trata a aparência como prova de valor, as pessoas arriscam coisas surpreendentes para parecer que pertencem.[1][2]






