O primeiro autor da história registrada não viveu em Atenas, Roma ou na Inglaterra de Shakespeare. Ela viveu há mais de 4.000 anos na Mesopotâmia, gravou suas palavras em argila e então fez algo que ainda parece surpreendentemente moderno: assinou sua obra.[1][2]
Seu nome era Enheduanna. Ela era uma alta sacerdotisa em Ur, geralmente identificada como filha de Sargão de Acad, e os estudiosos agora a consideram a primeira autora conhecida cujo nome sobrevive ao lado de sua escrita.[2][3][4] Esse detalhe importa mais do que parece. A literatura antiga está cheia de genialidade anônima, mas Enheduanna sai de trás do texto e diz, efetivamente, isto é meu.[1][4]
Um verso dos hinos do templo é o equivalente antigo de uma assinatura. Como observa a BBC, Enheduanna se identifica como “a compiladora da tábua” e então se vangloria de que o que ela criou nunca havia sido feito antes.[1] Você sente uma pessoa ali, não apenas uma civilização. Esse é o verdadeiro choque. O escritor mais antigo com nome na Terra não é uma lenda vaga. Ela tem uma voz.
Ela também tinha um trabalho maior que a poesia. Enheduanna serviu no templo do deus da lua Nanna em Ur durante o Império Acadiano, por volta do século XXIII a.C.[2][4] Segundo a Morgan Library e outros estudiosos, seu papel era tanto religioso quanto político, pois sacerdotes e sacerdotisas ajudavam a organizar o poder no mundo das antigas cidades‑estado.[3][4] É aqui que a história fica ainda melhor: sua escrita pode ter ajudado a manter um império unido.
O império de Sargão uniu governantes falantes de acadiano no norte com cidades sumérias no sul, e esse tipo de expansão cria um problema básico que ainda reconhecemos hoje. Como fazer com que diferentes comunidades sintam que pertencem ao mesmo sistema? Os hinos de Enheduanna parecem ter ajudado a fundir tradições locais, especialmente em torno da deusa Inanna e sua contraparte acadiana Ishtar, em uma imaginação religiosa mais unificada.[1][4] Em outras palavras, parte da literatura nomeada mais antiga que temos também era uma forma de diplomacia de Estado.
Sua obra perdurou. Textos atribuídos a Enheduanna foram copiados por escribas por séculos após sua morte, o que é uma das razões pelas quais seu nome sobreviveu.[1][4] Leitores modernos só a redescobriram no século XX, depois que arqueólogos desenterraram objetos que carregavam seu nome, incluindo o famoso disco de calcita que a mostra em procissão ritual.[1][3] Ela havia sido esquecida pelo mundo moderno, mas não pela argila.
É por isso que Enheduanna parece tão contemporânea. Ela lembra que a autoria não é apenas escrever algo. É sobre avançar e ligar o eu às palavras. Quatro milênios antes do livro de bolso, antes da imprensa, antes do romance, uma mulher na antiga Mesopotâmia já fazia isso. A assinatura mais antiga que conhecemos também é um argumento silencioso de que cultura, poder e personalidade sempre estiveram entrelaçados.[1][2][4]



