A Sonata Kreutzer de Beethoven é uma das sonatas para violino mais famosas já escritas. A parte estranha é que o homem cujo nome acabou nela nunca a executou de forma alguma.[1][2]
A obra foi originalmente escrita para George Bridgetower, um deslumbrante virtuoso do violino nascido no leste da Polônia em 1778, filho de um pai de ascendência africana e de uma mãe polono‑alemã.[2][3] Ele se apresentava publicamente ainda criança, deu concertos em Paris e Londres, e atraiu atenção real suficiente na Grã‑Bretanha para que o futuro George IV ajudasse a financiar sua educação musical.[2][3]
Em 1803, Bridgetower viajou para Viena, onde o príncipe Lichnowsky o apresentou a Beethoven.[2][4] Beethoven já havia começado a esboçar uma nova sonata para violino, e os dois a estrearam em 24 de maio daquele ano, em condições que parecem meio caóticas e meio lendárias.[2][4] A partitura mal estava concluída. As partes tiveram de ser copiadas às pressas, e, segundo relatos, Bridgetower leu parte da linha do violino diretamente do manuscrito de Beethoven durante a apresentação.[2][4]
Ainda assim, foi um sucesso brilhante.[4] Bridgetower inseriu um floreio próprio, e, segundo seu relato posterior, Beethoven gostou tanto que se levantou e gritou: “Mais uma vez, meu caro colega!”[2][4] Beethoven ainda lhe deu um diapasão, que ainda se conserva na Biblioteca Britânica.[4]
Inicialmente, a sonata foi dedicada a Bridgetower, completa com uma das inscrições brincalhonas e indisciplinadas de Beethoven.[2] Depois a amizade desmoronou. Um relato posterior diz que eles brigaram por causa de uma mulher, embora os historiadores tratem essa história com cautela, pois não provém de um documento contemporâneo.[2] O que está claro é o resultado: o nome de Bridgetower foi removido, e Beethoven rededicou a sonata ao virtuoso francês do violino Rodolphe Kreutzer.[1][2]
Isso já seria uma boa história, mas a verdadeira ironia vem a seguir. Kreutzer não gostava da sonata e nunca a tocou.[1][2] Assim, uma das obras mais conhecidas da história do violino é lembrada pelo nome de um músico que a rejeitou, enquanto o músico que a estreou foi relegado às margens.
A carreira de Bridgetower não merecia esse destino. De volta à Inglaterra, ele ingressou na Royal Society of Musicians em 1807, obteve o grau de Bachelor of Music em Cambridge em 1811, publicou músicas, ensinou e, mais tarde, tocou na primeira temporada da Philharmonic Society em 1813, incluindo a obra de Beethoven.[2][5]
É isso que faz a história perdurar. Não se trata apenas do temperamento de Beethoven. Trata‑se de como a memória é atribuída. Um nome é impresso, repetido e ensinado. Outro afunda nas notas abaixo da linha. Quando você percebe isso, o título Sonata Kreutzer deixa de soar fixo e inevitável. Passa a soar como um acidente de ego, publicação e história.[1][4]






