Em 13 de dezembro de 1931, Winston Churchill entrou no trânsito de Nova York e olhou para o lado errado. Um carro na Quinta Avenida o atingiu, cortando seu nariz e sua testa, causando hematomas no peito e torcendo seu ombro.[3] Em um país onde comprar álcool era ilegal, seu médico forneceu o papel necessário: um atestado dizendo que a recuperação de Churchill exigia bebidas alcoólicas nas refeições, em uma quantidade “naturalmente indefinida”.[3]

Durante a Lei Seca, o álcool medicinal se tornou uma das brechas legais mais estranhas dos Estados Unidos: médicos podiam receitar álcool, farmacêuticos podiam vendê-lo, e um médico foi citado por emitir 475 receitas de uísque em um único dia.

De 1920 a 1933, os Estados Unidos proibiram a produção, a importação, o transporte e a venda de bebidas alcoólicas.[1] A proibição nunca foi tão hermética quanto o slogan fazia parecer. Agricultores podiam produzir vinho para consumo próprio, membros do clero podiam usar vinho em cerimônias religiosas, e médicos licenciados podiam receitar álcool como medicamento.[5]

O formulário da receita fazia todo o trabalho. O Departamento do Tesouro autorizava médicos a usar talonários emitidos pelo governo para álcool medicinal, transformando uma garrafa de uísque de contrabando em tratamento.[5] Médicos escreviam prescrições para condições que incluíam câncer, indigestão e depressão; um paciente que pudesse pagar cerca de 3 dólares pela receita, mais outros 3 ou 4 dólares na farmácia, podia receber uma pinta a cada dez dias.[5]

Seis meses depois do início da Lei Seca nacional, mais de 15.000 médicos e 57.000 farmacêuticos tinham licenças para prescrever ou vender álcool medicinal.[3] Na década de 1920, estima-se que os médicos emitissem 11 milhões de receitas de bebidas alcoólicas por ano.[3] Um país “seco” havia criado um canal legal para beber, com uma sala de espera em uma ponta e um balcão de farmácia na outra.

O bilhete do médico virou moeda

Daniel Okrent, autor de Last Call: The Rise and Fall of Prohibition, disse à Smithsonian que os supostos exames e diagnósticos eram “em sua maioria falsos”.[5] Algumas receitas talvez refletissem uma crença médica genuína, mas Okrent descreveu esse comércio como uma forma de alguns médicos e farmacêuticos ganharem dinheiro extra.[5]

Assim que o papel passou a ter valor em dinheiro, a fraude veio junto. O comissário da Lei Seca, John F. Kramer, citou um médico que escreveu 475 receitas de uísque em um único dia.[3] Receitas falsificadas eram fáceis de escrever ou aceitar, e contrabandistas compravam formulários de médicos corruptos para golpes mais amplos.[3] Uma receita falsificada, ou concedida com demasiada facilidade, podia fazer uma garrafa parecer legal.

A disputa ia além do uísque. Brooks Hudson, escrevendo para a Points, descreve o álcool medicinal como parte de uma luta mais ampla sobre quem controlava o poder de prescrever: o Estado, a medicina organizada, os médicos ou os farmacêuticos.[2] A Lei Seca tirou esse debate dos periódicos profissionais e o levou para transações comuns, nas quais um paciente podia carregar a controvérsia até uma drogaria na forma de uma ordem assinada.[2]

As farmácias tinham motivos para receber bem esse movimento. A rede de farmácias de Charles R. Walgreen cresceu de 20 lojas para 525 durante a década de 1920, uma expansão frequentemente mencionada ao lado do boom nas vendas de álcool medicinal.[4] A exceção legal não explica cada nova loja, mas fazia parte da mesma paisagem estranha: fontes de refrigerante, talonários de receita e garrafas que podiam ser vendidas se um médico tivesse escrito as palavras certas.

A Lei Seca terminou em 1933 com a Vigésima Primeira Emenda.[1] O comércio de bebidas alcoólicas medicinais deixou para trás um pequeno artefato comum que carregava um poder incomum. Em uma mão, o talonário de receitas era um formulário médico. Em outra, era um plano de negócios. Para Churchill, recuperando-se de um acidente nas ruas de Nova York, era permissão para beber no jantar em uma nação que supostamente havia secado.

Fontes

  1. Prohibition in the United States, Wikipedia
  2. Profiting for Prescription: Medicinal Alcohol During Prohibition, Points
  3. The Lucrative Business of Prescribing Booze During Prohibition, Atlas Obscura
  4. 25 Fascinating Facts About Prohibition in America, Fact Paw
  5. During Prohibition, Your Doctor Could Write You a Prescription for Booze, Smithsonian Magazine