Devair Alves Ferreira mais tarde deixou sua família com uma frase que soa quase impossível até se saber o que brilhava em seu ferro-velho. Ele havia se apaixonado pelo brilho da morte. Depois que o metal quebrado de uma máquina de radioterapia abandonada chegou ao seu ferro-velho em Goiânia, Brasil, ele notou que algo dentro dela brilhava azul no escuro. Amigos e parentes vieram ver. Pequenos fragmentos, alguns descritos em um relatório oficial como do tamanho de grãos de arroz, foram passados de casa em casa.[1][2]
O acidente de Goiânia, no Brasil, começou quando catadores de sucata desmontaram uma fonte de radiação médica abandonada e passaram pó brilhante de césio-137 antes que alguém entendesse o que era.
Em 13 de setembro de 1987, dois homens entraram na clínica parcialmente demolida onde um instituto privado de radioterapia havia deixado a máquina. Eles removeram o conjunto da fonte, o levaram embora e tentaram desmontá-lo porque o metal parecia útil. A cápsula da fonte rompeu. O material dentro era cloreto de césio, um sal que poderia se espalhar facilmente uma vez que a cápsula fosse quebrada.[1]
No ferro-velho, a luz azul fez o perigo parecer quase doméstico. O relatório da AIEA diz que várias pessoas ficaram fascinadas com o brilho, e que visitantes vieram durante vários dias para vê-lo. Ninguém precisava acreditar em energia nuclear, medicina ou física para que o pó se tornasse social. Tornou-se algo que você mostrava a alguém depois do jantar. Tornou-se uma curiosidade pequena o suficiente para levar para casa.
Vômitos e diarreia atingiram as famílias expostas antes do alarme de radiação. Os sintomas não foram reconhecidos inicialmente como exposição à radiação. Cinco dias se passaram antes que uma das pessoas expostas conectasse as doenças à fonte e levasse os restos ao departamento de saúde pública. Um físico local então mediu a radiação, evacuou as áreas contaminadas e alertou as autoridades sobre a escala do acidente.[1]
As autoridades acabaram contando um rastro muito maior do que um único ferro-velho. A AIEA contabilizou cerca de 112.000 pessoas monitoradas, 249 pessoas contaminadas interna ou externamente, quatro mortes e 28 pessoas com queimaduras por radiação. Sete residências e outras estruturas tiveram que ser demolidas, o solo foi removido e aproximadamente 3.500 metros cúbicos de lixo radioativo foram gerados.[1]
Uma morte tornou-se a face pública do acidente porque foi tão insuportavelmente comum. Leide das Neves Ferreira, de seis anos, manuseou material contaminado em casa e mais tarde morreu por exposição à radiação. Em uma entrevista de 2012, sua mãe, Lourdes, descreveu a culpa que ainda carregava e a forma como a tragédia continuava viva dentro da família muito tempo depois que os caminhões de limpeza foram embora.[2]
Um helicóptero voou baixo sobre Goiânia depois que equipes de solo já haviam encontrado vários locais contaminados. Um artigo de 2023 da Brazilian Journal of Radiation Sciences descreve como a CNEN ordenou esses voos radiométricos porque as autoridades tinham pouca informação e precisavam saber se o pó havia se espalhado por vias navegáveis ou pela cidade. O levantamento cobriu a área urbana em dois dias e encontrou contaminação restrita a poucos locais perto da área de sucata, com um ponto adicional que as equipes de solo ainda não haviam identificado.[3]
A cápsula estava onde vários sistemas haviam parado de procurar ao mesmo tempo: uma máquina médica sem custódia, uma clínica em ruínas sem segurança, um pedaço de metal com valor de sucata e um círculo familiar atraído por uma bela luz. As pessoas a passavam porque parecia maravilhosa. A última imagem é um brilho azul em uma bancada, e uma fila de vizinhos se inclinando para mais perto antes que alguém saiba recuar.


