A maioria das pessoas passa a vida tentando não trair o mundo que as formou. Poncke Princen fez isso duas vezes. Primeiro, combateu os nazistas. Depois, voltou-se contra o exército holandês que o havia enviado para esmagar a independência da Indonésia. Mais tarde, ajudou a expor matanças em massa sob um dos próprios ditadores da Indonésia. Em cada etapa, atravessou uma linha que a sociedade respeitável insistia que não deveria ser cruzada. E, em cada etapa, parece tê-la cruzado pelo mesmo motivo: uma vez que decidiu que um sistema estava moralmente apodrecido, a lealdade a ele deixou de contar como virtude.[1]

É isso que torna Princen tão difícil de encaixar em uma narrativa nacional. Os holandeses não conseguiam celebrá-lo com facilidade, porque ele desertou da guerra colonial deles. Os indonésios também nem sempre sabiam muito bem o que fazer com ele, porque ele era, afinal, um holandês que havia chegado de uniforme. Ainda assim, no fim da vida, ele havia se tornado algo mais raro do que um herói de guerra ou um dissidente. Tornou-se um homem cuja biografia continuava a impor a mesma pergunta desconfortável. O que você deve ao seu país quando seu país está fazendo algo indefensável?

A formação de um desertor

Johannes Cornelis Princen, mais conhecido como Poncke Princen, nasceu em 21 de novembro de 1925, em Haia.[1] Cresceu em uma casa moldada pelo livre-pensamento, pelo anticlericalismo e por inclinações anarquistas. Mesmo na memória familiar, autoridade não era algo a que se obedecia automaticamente. Um de seus ancestrais havia sido desertor do serviço militar. Isso importava. E também importava a época em que Princen atingiu a idade adulta.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele se juntou à resistência holandesa contra os nazistas.[1] Essa é a primeira coisa a entender sobre ele. Não era um homem que se deixava levar passivamente pela história. Já havia escolhido um lado antes, e esse lado era o das pessoas que resistiam à ocupação. O problema veio depois, quando os Países Baixos lhe pediram que vestisse um uniforme em outra guerra e fingisse que aquela nova ocupação era outra coisa.

Depois da guerra, Princen foi enviado como soldado holandês para o que ainda se chamava Índias Orientais Holandesas, onde os Países Baixos tentavam reimpor o domínio colonial depois que a Indonésia havia declarado independência em 1945.[1] Oficialmente, isso era enquadrado como restauração, ordem, soberania, dever. Potências coloniais sempre são ricas em eufemismos. No terreno, era uma guerra contra pessoas que tentavam deixar de ser colonizadas.

O momento em que a história se rompeu

Algumas vidas giram em torno da ideologia, outras em torno da observação. A de Princen parece ter mudado de rumo porque ele viu demais. Na Indonésia, testemunhou crimes de guerra holandeses e se tornou cada vez menos disposto a servir à causa que havia sido enviado para defender.[1] Para alguém que tinha combatido os nazistas, o padrão moral deve ter sido impossível de ignorar. Ele havia resistido a uma força ocupante na Europa apenas para se ver servindo outra na Ásia.

Então, em 1948, desertou.[1] Essa palavra faz o ato parecer menor do que realmente foi. Ele não apenas fugiu do serviço. Cruzou para o outro lado e juntou-se aos guerrilheiros indonésios pró-independência.[1] No imaginário holandês, isso o tornou um traidor. Na história indonésia, tornou-o algo mais estranho ainda: um soldado colonial que havia concluído que os colonizados estavam certos.

A deserção costuma ser tratada como uma abstração ideológica. Na realidade, ela é íntima. Significa aceitar que as pessoas com quem você comeu, marchou, obedeceu e talvez temeu agora passarão a vê-lo como inimigo. Significa queimar o caminho de volta. Princen fez exatamente isso.

Um holandês em uma revolução indonésia

Assim que se juntou aos guerrilheiros, a vida de Princen deixou de fazer sentido dentro das categorias comuns do império. Ele era holandês, mas combatia tropas holandesas. Era europeu, mas estava do lado de uma revolução anticolonial. Um ex-soldado de um Estado colonial agora tentando ajudar a desmontá-lo. Essa é uma das razões pelas quais sua história continua tão fascinante. Ela interrompe a suposição preguiçosa de que as pessoas são sempre mais leais às bandeiras sob as quais nasceram.

Depois da independência da Indonésia, ele ficou.[1] Não voltou aos Países Baixos para se reabilitar nem para explicar o que havia feito. Construiu o resto da vida na Indonésia, tornando-se eventualmente cidadão indonésio e um proeminente ativista de direitos humanos.[1] Também se converteu ao islã, outro cruzamento de fronteira que tornava sua antiga identidade nacional ainda menos útil como guia para quem ele havia se tornado.[1]

Mas permanecer na Indonésia não significou tornar-se obediente ao poder indonésio. Essa é a segunda coisa notável nele. Muitos revolucionários são corajosos enquanto combatem impérios e tímidos quando o novo Estado assume o poder. Princen não tinha interesse algum em fazer essa transição.

De revolucionário a dissidente

A história da Indonésia pós-independência não entregou uma liberdade limpa. Entregou, entre outras coisas, governo autoritário, detenção, repressão e a consolidação violenta do poder sob regimes sucessivos. Princen tornou-se também sob esses governos um ativista de direitos humanos e um dissidente político, e por causa disso passou muito tempo detido.[1]

Esse arco importa. Teria sido fácil, e emocionalmente satisfatório, que sua vida se resolvesse em uma fábula simples: o antifascista holandês combate o colonialismo, junta-se ao lado certo e vive feliz para sempre na nova nação. A história real é mais cruel do que isso. O país cuja independência ele apoiou passou a produzir sua própria maquinaria de repressão, e Princen, já então coerente de modo quase irritante, opôs-se a isso também.

O que nos leva talvez ao capítulo mais moralmente difícil. Sob Suharto, a Indonésia assistiu a massacres anticomunistas em escala espantosa. Mais tarde, Princen ajudou a expor essas matanças.[1] É aqui que sua vida deixa de parecer uma sequência de reviravoltas dramáticas e começa a parecer um longo argumento único. Ele não era leal a nações. Era leal à ideia de que Estados fazem coisas monstruosas quando ninguém insiste em dizê-lo em voz alta.

O problema com homens assim

Os países não sabem muito bem como se lembrar de pessoas como Poncke Princen. Ele constrange mitos oficiais demais ao mesmo tempo. Para a memória colonial holandesa, foi o soldado que olhou para o império e escolheu o outro lado. Para qualquer versão triunfalista fácil do nacionalismo indonésio, foi o lembrete de que a independência não encerrou o trabalho moral. Para autoritários de todo tipo, foi aquele tipo profundamente inconveniente de pessoa que continua reconhecendo o padrão.

Ele morreu em Jacarta, em 2 de fevereiro de 2002.[1] Naquela altura, já havia passado mais de meio século no país em que um dia entrara usando o uniforme de um ocupante. Só isso já bastaria para tornar sua biografia memorável. Mas o que permanece não é apenas o drama da deserção. É a coerência por baixo de tudo isso.

Princen combateu os nazistas porque se opunha à ocupação. Desertou do exército holandês porque se opunha à violência colonial. Desafiou a ditadura indonésia porque se opunha à repressão. Os uniformes mudaram. As bandeiras mudaram. A linguagem da justificação mudou. Sua reação, na maioria das vezes, não.

Há algo quase inquietante em uma vida tão coerente. A maioria das pessoas se adapta ao vocabulário moral das instituições à sua volta. Poncke Princen continuou fazendo o oposto. Levou as instituições ao pé da letra, olhou para o que elas realmente faziam e, quando a distância entre uma coisa e outra ficou grande demais, foi embora, mesmo que isso significasse tornar-se um traidor no livro de história de outra pessoa.

Fontes

1. Wikipedia - Poncke Princen