Às 8h45 de uma segunda-feira em Filadélfia, o guarda do Parque Nacional Rick Starr seguia para o que ele lembrava como uma reunião sem graça no Liberty Bell Center. Então viu repórteres do lado de fora com cadernos nas mãos. Uma equipe de filmagem veio logo atrás. Lá dentro, colegas seguravam jornais e faziam uma pergunta que parecia boba demais para precisar de resposta: o Sino da Liberdade tinha mesmo sido vendido para a Taco Bell?[3]

Em 1º de abril de 1996, a Taco Bell anunciou em anúncios de página inteira em jornais que havia comprado o Sino da Liberdade e o rebatizado de “Taco Liberty Bell”. O anúncio era uma pegadinha do Dia da Mentira, mas, por várias horas, muitos americanos o levaram a sério.

O anúncio soava calmo, oficial e quase ofensivamente razoável. “Em um esforço para ajudar com a dívida nacional”, dizia a Taco Bell, a empresa havia concordado em comprar “um dos tesouros mais históricos do nosso país”. O sino continuaria disponível para visitação pública, prometia o texto, só que agora sob o nome “Taco Liberty Bell”. A empresa esperava que outras corporações tomassem iniciativas semelhantes para reduzir a dívida nacional.[2]

Naquela manhã, anúncios de página inteira foram publicados em seis grandes jornais: The Philadelphia Inquirer, The New York Times, The Washington Post, The Chicago Tribune, The Dallas Morning News e USA Today.[1][2] A piada funcionou em parte porque o formato parecia muito sério. Um anúncio falso impresso nos principais jornais do país não parecia uma brincadeira à primeira vista. Parecia que a América corporativa tinha encontrado mais uma superfície para estampar uma marca.

No Independence National Historical Park, os telefones começaram a tocar. Centenas de cidadãos irritados ligaram para o parque, e outros relatos falam em milhares de chamadas para a sede da Taco Bell e para o National Park Service.[1][2] A porta-voz do Park Service, Elaine Sevy, disse: “Ficamos chocados. Não fazíamos ideia de que isso estava acontecendo. Estamos sendo bombardeados por telefonemas do público.”[2]

O guarda Larry McClenney mais tarde se lembrou de uma colega com “um telefone de cada lado da cabeça”, tentando responder a pessoas que exigiam saber: “Como vocês puderam vender esse ícone nacional?”[3] Assessores dos gabinetes dos senadores Bill Bradley e J. James Exon estavam entre os que telefonaram.[2] No meio da manhã, a filial da Filadélfia do National Park Service já havia organizado uma coletiva de imprensa para acalmar a população. “O Sino da Liberdade está seguro. Ele não está à venda”, anunciou uma porta-voz.[2]

A premissa era impossível de um jeito que muitos dos que ligaram não sabiam. O anúncio dava a entender que o governo federal poderia vender o Sino da Liberdade para ajudar a pagar a dívida nacional. Na verdade, o sino era propriedade da Cidade de Filadélfia, não do governo federal.[2]

A piada chega à Casa Branca

Ao meio-dia, a Taco Bell admitiu que o anúncio era uma farsa.[1] A peça havia sido criada por Jon Parkinson e Harvey Hoffenberg na Bozell, a agência de publicidade da Taco Bell, e a campanha mais tarde ganhou prêmios do setor.[1] Um relato também informou que a Taco Bell fez uma doação relacionada à preservação do Sino da Liberdade como parte da revelação da brincadeira.[4]

A resposta mais afiada veio da Casa Branca. Quando perguntaram ao secretário de imprensa Mike McCurry sobre a suposta venda, ele disse que o governo federal também estava vendendo o Lincoln Memorial para a Ford Motor Company. O monumento seria rebatizado de “Lincoln-Mercury Memorial”.[1][2]

Como ação publicitária, a pegadinha foi extraordinariamente eficiente. Segundo um relato, a campanha custou cerca de US$ 300 mil e gerou uma estimativa de US$ 25 milhões em publicidade gratuita. A Taco Bell também registrou um aumento de vendas de mais de US$ 1 milhão nos dois primeiros dias de abril.[1] David Paine, fundador da agência de relações públicas que executou a campanha, mais tarde a chamou de “o projeto mais bem-sucedido em que já estive envolvido”.[1]

O Taco Liberty Bell existiu como suposto fato por apenas algumas horas. À tarde, a piada já tinha voltado a ser apenas uma campanha publicitária. Em Filadélfia, porém, funcionários do parque passaram a manhã atendendo telefones sem parar enquanto o sino rachado de bronze permanecia onde sempre estivera, de repente defendido por estranhos que haviam descoberto como uma pegadinha podia, tão rapidamente, parecer um roubo.

Fontes

  1. Taco Liberty Bell, Wikipedia
  2. The Taco Liberty Bell, Museum of Hoaxes
  3. The Story of Two Iconic Bells and the Prank that Fooled America, StoryCorps
  4. Taco Bell Buys the Liberty Bell, CrazyAds