A piada já estava no título antes mesmo de alguém levar um tapa. Em janeiro de 1940, a Columbia lançou um curta dos Três Patetas chamado You Nazty Spy!, uma frase propositalmente deturpada com um alvo perigoso: Adolf Hitler, ridicularizado nas telas americanas antes de O Grande Ditador, de Charlie Chaplin, chegar aos cinemas mais tarde naquele ano.[1]

Os Três Patetas eram artistas judeus cuja linguagem cômica muitas vezes recorria ao iídiche, e seu curta de 1940 You Nazty Spy! é amplamente citado como a primeira sátira direta de Hollywood a Hitler, lançada nove meses antes de O Grande Ditador, de Chaplin.

Àquela altura, os Patetas já eram famosos por outro tipo de violência. O corte tigelinha de Moe Howard, o cabelo arrepiado de Larry Fine, a cabeça raspada de Curly Howard, os dedos nos olhos, as pancadas na cabeça, os móveis desabando — tudo fazia com que parecessem homens que haviam chegado à vida adulta sem aprender como os cômodos funcionavam.[1] A Columbia Pictures acabaria lançando 190 de seus curtas, uma sequência de locais de trabalho baratos, ferramentas quebradas, maus modos e corpos usados como instrumentos de percussão.[1]

Os nomes por trás do número contavam outra história. Moe Howard nasceu Moses Horwitz. Shemp Howard era Samuel Horwitz. Curly Howard era Jerome Horwitz. Larry Fine era Louis Feinberg, nascido na Filadélfia em uma família judia russa cuja loja de conserto de relógios e joias proporcionou um dos acidentes mais estranhos de sua infância.[1][3] Um frasco de ácido clorídrico, usado para testar ouro, respingou no antebraço do jovem Larry depois que seu pai o afastou de sua boca. Aulas de violino, destinadas a fortalecer os músculos lesionados, ajudaram a transformá-lo em artista antes que ele se tornasse o homem no meio dos Patetas.[3]

Uma língua escondida no barulho

Os Patetas vieram do vaudeville, onde o reconhecimento precisava ser instantâneo. Um corte de cabelo podia virar personagem. Um empurrão podia virar frase. Uma palavra estranha, gritada na velocidade certa, podia arrancar uma risada antes que a plateia tivesse tempo de traduzi-la.[1][5]

Muitos espectadores ouviam as explosões verbais dos Patetas como pura algaravia, mais uma camada de caos cômico entre tapas e quedas. O número frequentemente incorporava palavras em iídiche e ritmos marcados pela fala judaica, transformando a língua dos imigrantes em parte do pastelão americano popular.[1] A piada funcionava em duas direções. Alguns ouviam nonsense. Outros ouviam algo que vinha de casa, escondido dentro de um curta da Columbia entre uma frigideira e um tombo.

A formação continuou mudando, mesmo que o número permanecesse em três. Moe e Larry eram as constantes. Shemp saiu, Curly entrou, a saúde de Curly piorou, Shemp voltou, e mais tarde Joe Besser e Curly Joe DeRita ocuparam o terceiro lugar.[1][2] O número durou, de uma forma ou de outra, de 1922 a 1970, mais tempo do que muitos dos estúdios, chefes e cinemas que o moldaram.[1]

O curta sobre Hitler antes de Chaplin

You Nazty Spy! chegou em 1940, antes que o mais famoso O Grande Ditador, de Chaplin, alcançasse o público.[1] O momento ainda causa impacto. Os Patetas não eram conhecidos como artistas políticos solenes. Eram os homens que destruíam encanamentos, transformavam tribunais em confusão e faziam da barbearia uma agressão. Ainda assim, colocaram Hitler no caminho do ridículo antes do palhaço mais celebrado de Hollywood.

Sua sátira usava as ferramentas que eles já tinham nas mãos: nomes paródicos, linguagem fraturada, autoridade frenética e a visão de homens presunçosos reduzidos ao absurdo.[1] Para comediantes judeus em 1940, esse ridículo tinha um peso mais duro do que a farsa comum. A comédia dos Patetas sempre fora sobre corpos sob pressão. Em You Nazty Spy!, a pressão vinha de fora do estúdio de filmagem.

A televisão mais tarde achatou esse contexto. A partir de 1958, os curtas da Columbia passaram a ser exibidos regularmente na TV, onde novas gerações conheceram os Patetas como uma bagunça de fim de tarde, separados do vaudeville, dos contratos de estúdio, da fala dos imigrantes judeus e da sátira de guerra.[1] Uma criança podia rir do dedo no olho sem saber que o mesmo grupo um dia havia voltado seu nonsense com sotaque iídiche e seu desprezo pastelão contra Hitler.

O soco chega primeiro. O significado aparece depois, usando corte tigelinha, segurando um violino e respondendo por um nome mudado para o palco.

Fontes

  1. The Three Stooges, Wikipedia
  2. All 6 Members Of The Three Stooges Explained, Screen Rant
  3. Larry Fine, Wikipedia
  4. The Timeline Of All Six Of The Three Stooges Explained, Grunge